segunda-feira, 19 de maio de 2014

DOIS LADOS


A infelicidade é como um veneno que espalha-se rapidamente na corrente sanguínea e quando chega no coração atrela-se de forma voraz, alimentando-se mais e mais dos nosso pensamentos.É tão forte que chega a machucar. Como pode um sentimento ser,assim, tão arrebatador?

Já a felicidade é contagiosa, mas faz muito bem a todos que a sentem; pena durar tão pouco e ser tão rara a quem precisa. Deve ser passageira por algum motivo, vai ver porque a sua ausência nos faz deseja-la ainda mais, logo tudo que é raro é cobiçado.


Feliz ou Infeliz o importante é sentir.

sábado, 29 de março de 2014

CAMINHAR É PRECISO


Há que se correr para sobreviver. Nem mesmo as metáforas são criadas com uma inspiração caminhante... não se caminha mais rumo ao sol: corrida pelo ouro, corrida espacial, corrida presidencial. “Devagar se vai ao longe” está muito aquém da corrida, a essas alturas.

Caminhando outro dia percebi que, na verdade, eu corria. Passo lento já não é mais possível nos tempos atuais, nas tardias horas, nas sombrias ruas. Sabiamente, o pregador falava depressa, contestando a fé dos que passavam correndo, sem dar-lhe a atenção que ele considerava merecer. Sobriamente, nem o bêbado se deixava cair: cambaleando, ele corria. Seriamente, os vendedores exigiam a pressa dos clientes, senão o produto logo acabaria...

Tudo são corridas. Solitárias? Talvez. Difíceis? Certamente.

Não só corre ao nosso lado quem sente falta de aventura. Não socorre à fadiga quem, de fato, está sadio. Não as corridas, mas os corredores geram inconsistências logicamente egoístas: ajudo-te a me ajudar se você me der ajuda. Mas interesse não é egoísmo e solidão não é correr sozinho: é correr por nada; e, usando a lógica, que mesmo não cabendo nas metáforas, arrisco: nada corre por/para nada.

O rio não corre POR correr. Há uma força que o move e que o leva PARA algum lugar: o mar. Os amigos não se juntam para tocar POR tocar: eles escrevem um pouco de alegria nos acordes – inclusive os desafinados – e nos tempos – inclusive os mal contados. Tudo é música e tudo serve PARA algo.

“Toda caminhada começa com o primeiro passo”. E as corridas? Nascem de caminhadas? Quem sabe? Quem sabe corre ou caminha?

Se todos estão correndo ou todos estão caminhando é uma questão que depende do referencial. Correndo a vista um pouco, meu referencial me diz que todos correm – exclusive a minha vista, que, lenta, não acompanha todas as corridas. Caminhando por aí vejo que muitos correm e os que não correm estão parados, esticando as mãos, pedindo aos que correm. Mas há ainda os que, para pedir, correm e os que correm porque pediram (e os que correm para não pedir ou correm porque não pediram).

Na corrida pelo sucesso, pelo momento certo, pelo melhor lugar, pelo menor preço... muita gente fica para trás, muita gente é empurrada para o lado e acaba ficando para trás. Às vezes, até quem mais corre e chega primeiro foi, na realidade, passado para trás.

Caminhar é preciso para entender por que e para que corremos. Caminhar é preciso para ver o que é possível fazer pelos que não conseguem correr. Caminhar é preciso para entender com precisão o que não tem explicação.


Todos correm, menos você... pelo menos no curto espaço de tempo que você para de correr para ver quem mais não corre: ninguém.

CANTO I


Espero-te na calçada da ilusão
Subitamente, na minha frente
Eis que surge Ela
A doce donzela...
Vejo-te defronte, em vão
Vai-se... Se vai lentamente
De plácidos passos dançantes
E tão rápido chega ao longe
Indo...
Chega ao fim sem se ver
Vê-la seria desenlace
Soluçando desce seco
Pois de repente só te vejo em meu coração.

O HÁBITO NÃO FAZ O MONGE!


O hábito da loucura é fugir da lucidez
O hábito da vontade é sentir de quando em vez
O hábito da preguiça é acordar depois das 6
O hábito da menstruação é aparecer de mês em mês
O hábito do bandido é dizer que nunca fez
O hábito da mentira é a gaguez
O hábito do sexo é a nudez
O hábito de Teresina é o calor...quis dizer, é o piauiês
O hábito do enganoso é ser cortês
O hábito do impaciente é não saber esperar a vez
O hábito do arrogante é a estupidez
O hábito do desamor é a rispidez
O hábito da virtude é a não solidez

O hábito da culpa é a negação
O hábito da estrada é a contramão
O hábito da crença é a contrição
O hábito do protesto é a dispersão
O hábito do infiel é a traição
O hábito da perda é a consolação
O hábito da existência é a distinção
O hábito do pecado é redenção
O hábito do desejo é a atração
O hábito da tristeza é a solidão
O hábito do oculto é a interrogação
O hábito da certeza é a revisão
O hábito do sentido é a intuição
O hábito da ideia é a inovação.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O MAR-CADOR


Sobre o que tentarei prendê-lo, caro paciente (no sentido de ter paciência por acompanhar as linhas que aos poucos tu acompanhas, não no sentido de ter paciência de esperar o atendimento médico, por exemplo), nas sílabas, palavras, frases, orações e períodos a seguir, é algo que todos nós vivemos, embora seja muito provável que não nos damos conta. Obviamente, possível é que apareça alguém que não tenha ideia daquilo a que me refiro, por não comungar do mesmo sentimento ou por não apropriar-se do mesmo uso desse bem tão valioso... (Se você ler esse parágrafo sozinho mais uma vez, esquecendo-se do restante do texto, pode cogitar um milhão de coisas sérias e polêmicas que viriam a seguir. Uma pena [ou que bom!] que não seja bem isso!)

O caso é o seguinte: terminados o almoço e a conversa que geralmente se estende por alguns quartos de minuto e a autoatualização das notícias e relevâncias ao redor, peguei, como de costume, um livro para me ajudar na doce tarefa de iniciar uma tarde. Há dias vinha lendo aquele mesmo livro – comecei a leitura dele em 2013, e apesar de já se irem vários dias do novo ano, ainda estava no mesmo livro (Obs.: isso não é uma daquelas piadas bobas que fazem no dia 31/12 dizendo “só vou banhar agora no próximo ano”; ou no dia 1º/01 “nossa! faz tanto tempo que não te vejo... te vi no ano passado”! Demorei de verdade nesse livro relativamente pequeno). Dessa vez, ao pegá-lo a fim de dar prosseguimento à sua leitura, nem me dava conta de que estava bem perto do fim. Enfim, retirei o marcador que tem alguma frase bonita do “Seu” William (um cara aí que foi dramaturgo e que é incalculavelmente inesgotável no que fez, num tem?) e prossegui a leitura do livro homônimo de uma canção fantástica da Donzela de Ferro (Em inglês, Iron Maiden, é claro!).

Depois de pouco menos (ou muito menos – a gente costuma se perder com a contagem do tempo enquanto lê alguma coisa excelente) de uma hora, concluí a leitura do livro. Engraçado é que, antes de me convencer que o fim da história havia, de fato, chegado, procurei, entre a folha em branco, a folha com as propagandas dos demais volumes da editora e a biografia do escritor americano  autor da obra que lia  outras páginas com o conteúdo que há dias me prendia. Mas, infelizmente, as páginas inexistiam... o que restou – passivo, inerte, triste por seu trabalho ter encerrado e com medo de ser jogado dentro de uma gaveta ou em cima de qualquer coisa, sem certeza ou sequer perspectiva de que ainda seria útil algum dia – foi o marcador.

Detido por alguns instantes nessa cena, sempre fico após a leitura de um livro. A última vez que usamos um marcador, por mais trivial que possa parecer, é algo extremamente poético. Quer ver? Veja!...

À beira do desuso
Cansado do que vi
Tudo parecera outrora escuro,
Mas era entre letras,
Proseadas, rimadas,
Prosaicas ou vernáculas,
Que me puseram com confiança,
Com fé e esperança.
À beira do desuso sempre estive,
Incerto se veria
As mesmas frágeis mãos
Que me ligavam ao coração
Confiante, incessante,
Ordenador da missão
De resguardar a memória
E trazer-lhe com firmeza
Ao ponto de parada,
Ponto de partida
E um dia, enfim, chegada.
A beira do desuso que eu vi,
Hoje contemplo com saudade:
Espero ter saúde
Para voltar à utilidade
Na poeira das gavetas e armários,
Na eternidade das páginas cerradas,
Na alegria do livro e sentimento abertos.




Ok, ok! Confesso que não foi lá uma grande poesia. Contudo, deixo aqui o meu conselho a ti que, a meu exemplo, usas (por precisão ou por prazer) um instrumento para ajudá-lo na retomada da leitura de um livro: antes mesmo de escolher bem o livro, escolhe bem seu marcador, afinal tão importante quanto o caminho que tu segues são as placas que te guiam e te fazem lembrar onde estás, por onde ir... E, no fim, quando estiveres segurando aquele pedaço de papel mais consistente que as páginas do livro sem ter que recolocá-lo numa página específica, agradece por ter tido a chance de utilizá-lo e pede a Deus (aos céus ou ao acaso – a gosto...) a chance de fazê-lo servir a ti mais e mais vezes: marcar as páginas que marcarão o coração.